Horizonte Largo
Por Paulo de Freitas Mendonça *
Instrumento símbolo
Um projeto para decretar o acordeão, denominado de gaita por esses pagos,
como instrumento símbolo do Rio Grande do Sul, tramita na Assembleia
Legislativa.
É louvável o projeto de um deputado acordeonista sugerir o instrumento
que sabe executar como a simbologia musical do Estado. Todavia, me pergunto
o porquê do acordeão ser instrumento escolhido, quando seria mais justo
gaita e violão, ou exclusivamente o segundo, haja vista que o instrumento
de cordas é mais tradicional que o de fole no Rio Grande do Sul.
A viola, ou vihuela, ancestral do violão, estava presente no sul do
Brasil muito antes da gaita que entra no Rio Grande do Sul após a guerra
do Paraguai. Nos períodos das Reduções Missioneiras e da Revolução Farroupilha
há registro da viola.
O Acordeão chegou depois, tanto que há quadrinhas tradicionais que enfatizam
isso:
“Mas há uma diferença
no desafio campeiro
hoje com gaita e não viola
como era de primeiro.”
(Piá do Sul).
“A gaita matou a viola;
O fósforo matou o isqueiro;
A bombacha; o chiripá;
A moda o uso campeiro.”
(quadra popular)
Potencialidades do Gauchismo
O Fórum Democrático de Desenvolvimento que a Assembleia Legislativa
do estado do Rio Grande do Sul pretende debater este ano, tem como um
dos temas “Potencialidades do Tradicionalismo Gaúcho”. As previsões
do debate colocam o estado da Bahia como referência na difusão cultural
e inserem perguntas a serem respondidas pelo fórum. Nestas interrogações
estão explícitas manifestações extratradicionalismo, que dão a entender
que o fórum quer compreender o gauchismo e não exclusivamente o tradicionalismo.
Talvez, decifrar a nanica indústria cultural gaúcha.
O que chega até aqui referente a Bahia é o produto cultural, trabalhado
como indústria. A boa compreensão das teorias da Escola de Frankfurt
permite à Bahia se valer da indústria cultural para a massificação do
seu produto, o que se torna grande atrativo para os políticos locais
que, por sua vez, passam a injetar verbas para o fortalecimento desta
indústria em troca de popularidades próprias.
Mas, voltando às questões do debate rio-grandense. Além do pressuposto
equivocado de que nada foi feito cientificamente antes, o corpus da
pesquisa já nasce corrompido, por partir do olhar de fora, que vê tudo
como tradicionalismo e não como gauchismo. Tradição é uma parcela do
gauchismo, na qual se baseia o Movimento Tradicionalista Gaúcho para
estipular seu campo de ação. Porém o MTG, o órgão oficial, nada mais
é do que uma ONG - organização não governamental - que muitas vezes
é confundido como o dono todo poderoso do gauchismo. No entanto, a cultura
gaúcha existe fora do MTG, o que não invalida sua existência nem sua
atuação.
Se o debate surgir com olhar tradicionalista sobre a cultura gaúcha
que é mais ampla e mais viva que o tradicionalismo, certamente fugirá
do científico para bailar na orla do ideológico.
A resposta que busca o fórum, é conhecida por quem labuta no movimento
cultural gaúcho. Todavia, se quisermos traçar um paralelo entre os dois
estados, não podemos comparar um produto de cultura mercadológica num
processo capitalista, com a cultura autóctone que não se prende a falsa
realidade da mistificação das massas.
Lá, se cria condições favoráveis para implantação da indústria cultural
pelo preço de troca, objetivando a remodelação subjetiva do cotidiano
na esfera cultural, padronizando as formas e técnicas na busca de atender
sempre as maiores demandas no caráter coercitivo da sociedade alienada.
Aqui, se quer desalienar a população enquanto indivíduo, não em massa.
Busca-se aprimorar sua consciência crítica individual, valorizar a condição
estética inusitada e sentimental da obra, a sublimação da mente humana,
agregando valores culturais à semiconsciência, na busca de entendimento
ao verdadeiro amor à terra. Porque uma coisa é arte, outra é produto
cultural composto de técnica de propagação e difusão ou de estética
padronizada de dominação. Não se pode comparar rendimento com sentimento.
Acredito que antes de estabelecer comparativos, temos compreender o
gauchismo. Devemos primeiro saber que o tradicionalismo não é o todo
da cultura regional rio-grandense. Temos que estar abertos ao entendimento
das influências culturais legítimas e também saber diferenciar o que
é produto cultural, o que é cultura e o que é entretenimento. O telúrico
pode não ser divertido, mas alimenta a alma, assim como o bailável pode
não ser terrunho, mas alegra a gente.
Se a ideia é tratar a parte como o todo, então vai ser melhor uma grande
roda de mate e churrasco à beira do fogo para contar boas anedotas.
E, para começar, poderia ser a dos carangejos baianos e gaúchos em seus
baldes com ou sem tampa. Como espero que debate seja amplo, conto o
fim desta piada imensamente conhecida: os caranguejos baianos, pela
lógica, estão no balde com tampa, porque senão todos ajudam para que
um suba e tire os demais do balde, enquanto os gaúchos estão no balde
sem tampa, porque se um conseguir subir até a borda do balde, os outros
se encarregam de puxá-lo de volta.
* Jornalista, pajador e apresentador
pajador_mendonca@hotmail.com
A PARTE NÃO É O TODO
Peço, antes que comece
este meu verso teatino,
permissão, porque opino
com razão de quem conhece:
nem tudo o que se parece
é o que possa parecer.
Quem só de fora quer ver
pode cair no engodo
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Por conhecer bem a parte
e os seus desmembramentos,
afirmo aos quatro ventos
um saber que se comparte:
cultura não é só arte
que reproduz o viver.
Cultura faz renascer
o genuíno com denodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Tradição é uma herança
de valor espiritual.
Legítima e cultural,
é o fiel da balança.
Alicerce da esperança
do porvir a florescer,
mas se a gente adormecer
o futuro passa o rodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Sei, com alma guitarreira,
sopro não é assovio.
Nem toda fronteira é rio,
nem todo rio faz fronteira.
A gota, uma água inteira,
noutra, vai se desfazer.
Pouca, lodo vai fazer,
mas se muita, lava o lodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
A imagem não é o fato
do qual ela se estrutura,
tampouco a nomenclatura
pode ser dona do ato.
A voz não é o relato
do que pretende dizer.
Não se admite entender
gaúcho qual um apodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
DE ANDAR
Fronteira é uma divisa
imaginária, ilusória,
cada vez menos notória,
cada vez mais imprecisa
quando a alma poleniza
na flor da paz fraternal.
A fronteira é um sinal
que na verdade inexiste
ante o amor que persiste
na pátria espiritual.
O homem nasce pra andar
pelos caminhos difusos
integrando atos, usos
e sua forma de pensar.
O jeito de se postar
expressa suas verdades
e atrai como amizades
os que encontra por aí:
são reflexos de si
em suas afinidades.
O HOMEM
Mote:
A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.
Glosa:
A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.
O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.
A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.
O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.
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Aos Meus Irmãos
Aos irmãos de continente
de pulsação e energia,
de pátria e de poesia,
de alma e subconsciente,
de respeito mutuamente,
sempre que posso me irmano
porque aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de abraço e sorriso
ou de aperto de mãos,
sendo ou não concidadãos
ou parceiros de improviso,
nada é tudo que preciso
para encontrar um hermano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de além fronteira
ou daqui, do dia-a-dia.
Independe a geografia
se amizade é verdadeira.
Sendo a alma é bem campeira
bato versos mano a mano.
Por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos, quero brindar
aos de mate e cantiga,
parceiros de prosa amiga,
ou então os de além mar
com quem quero me encontrar
nem que seja ano a ano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos desconhecidos
por estas tantas querências
sei de suas existências
por instinto e por sentidos.
Jamais serão esquecidos,
pois a ninguém eu engano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
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O Chamamé
Chama-me sempre de amor
que a todo bem é capaz.
Senão, chama-me de paz
que é alva mais linda cor.
Chama-me de sonhador,
que quer a todos igual.
Chama-me de fraternal,
que é puro de coração.
Chama-me então de canção
de uma terra sem mal.
Chama-me de alegria
que é benção do eterno Pai.
Chama-me de sapukay
que é explosão de energia.
Chama-me de melodia
que põe a alma de pé.
Chama-me de terra e fé
por eu ser asa e semente.
Chama-me de voz e gente:
Chama-me de Chamamé.
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A Suprema Paz
A paz é mais que um evento,
sutil em sua unidade.
Possui mais diversidade
que da terra ao firmamento.
A paz de estacionamento,
por plasmada, nada faz,
ensimesmada lhe apraz
beber do egocentrismo.
Por ser paz de egoísmo
Não é a suprema paz.
A paz de quem não agride
com falso olhar sereno,
por não judiar do pequeno
se julga grande e regride.
Pela empáfia não progride,
pois tem ganância mordaz.
Dança a vaidade fugaz
na guerra embaixo dos panos,
sendo paz de ares profanos
Não é a suprema paz.
A paz falsa que consola
pondo-lhe a mão na cabeça.
Ao contrário que pareça
produz falácia e enrola,
num discurso que controla
a inocência que ali jaz.
É uma paz incapaz
de acalmar alheia dor.
Por ser de esfera inferior,
Não é a suprema paz.
A paz trançada em tratados,
em contrato ou carta régia,
é uma paz de estratégia
com dois lados deformados.
É paz dos desesperados
que são guerreiros, aliás,
com rastros de sangue atrás,
apenas cessam as mortes
Paz de interesse dos fortes
Não é a suprema paz.
A paz por necessidade
por revanche do vencido
é algo tão sem sentido,
foge a razão da verdade.
É paz sem cumplicidade
que um passo em falso a desfaz.
Logo a guerra se refaz
em sua arte tão ágil.
Por ter fundamento frágil,
Não é a suprema paz.
Paz de interesse vulgar,
gesto de falso cortês,
salgada de insensatez
é gota doce no mar.
Mistura-se ao seu azar
e por mais que seja audaz
torna-se ineficaz
de vestir-se em cortesia.
Por ser paz de antipatia
Não é a suprema paz.
A paz de estar solito
no meio da multidão
ou de arder em solidão
em seu recinto restrito.
É paz que sufoca o grito
da realidade vivaz.
Por sonhador contumaz,
se torna um auto-recluso.
Por ser a paz de um confuso,
Não é a suprema paz.
A paz de grande festejo
só vestida de aparência
é uma paz sem consciência
de destorcido desejo.
Rolam moedas ao tejo
na extravagância voraz.
Quase ninguém é capaz
de conter farto consumo.
Por embriagar seu rumo
Não é a suprema paz.
Paz de alardes frenéticos
de falatórios inúteis
com protagonistas fúteis
e resultados patéticos,
atropela atos éticos,
mostra vistoso cartaz,
porém quem é perspicaz
pouca atenção lhe demanda,
porque a paz de propaganda
Não é a suprema paz.
Contudo, a paz de verdade
tem sopros de onipotência,
de compreensão, clemência,
fé, justiça e caridade,
de infinita bondade,
de servidor pertinaz,
de amoroso tenaz,
vendo a todos como seus.
Só a paz que vem de Deus
É sim, a suprema paz.
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Disse Dom Jayme Caetano
Lembro Dom Jayme Caetano,
o pajador missioneiro,
como um pajé feiticeiro
do xucro verso pampeano.
Quando esteve nesse plano,
disse ao Pago muito bem:
“Às vezes quem nada tem
é aquele que melhor vive,
quantas fortunas eu tive
sem nunca ter um vintém.”
Menestrél iluminado,
do nosso tempo, um Homero,
que teve um cantar sincero
do presente e do passado.
Disse que o Patrão sagrado,
em sua sabedoria,
“deu o canto e a melodia
para os pássaros e os ventos
pra que fossem complementos
do que chamamos poesia”
Fez um relato preciso,
em sua crioula leitura,
que Deus fez criatura
que expulsou do paraíso.
Arrematou d’improviso
com este verso bonito:
“O homem nasce de um grito
e a morte é tão silenciosa
na passagem misteriosa
que apaga nosso infinito”
Poeta e pajador,
o crioulo das missões,
fazia interpretações
do gaúcho campeador,
desde o de fino teor
ao taura da casca grossa:
“Que bárbara a raça nossa,
vejo quando examino,
as origens do teatino
que o chimarrão não adoça”
De-a-cavalo na experiência
que lhe forjou a estatura
num manancial de cultura,
interrogando à existência.
E por ter buena consciência,
disse com sinceridade:
“Aprendi na mocidade
algo que ninguém me tira,
que não há meia mentira,
tampouco meia verdade.”
Por isso tem a certeza
que nada é ultrapassado,
porque tudo está ligado
nas teias da natureza.
Nos explica com clareza
a força da auto-estima:
“Há uma lei que vem de cima
na estrada do tapejara:
- o tempo que nos separa
é o que mais nos aproxima.”
Conheci este cantor
escreve Mozart Pereira
quando abre-lhe a porteira
do potreiro pro leitor.
Também guardo este “honor”;
igualmente o conheci.
E com ele eu aprendi
o que o mundo saberá:
“Por longe que o homem vá
nunca fugirá de si”
Há homens que nascem vento
passam - passam, ninguém nota,
mas os de bombacha e bota
são feitos de sentimento.
Por orgulho ao seu talento
na pajada e na cantiga
sempre ouço voz amiga
a alardear com louvor:
“Que conheceu um cantor
daqueles da marca antiga.
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