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Jornal do Nativismo
Hoje é sexta-feira, 30 de julho de 2010

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Horizonte Largo

Por Paulo de Freitas Mendonça *

Instrumento símbolo
Um projeto para decretar o acordeão, denominado de gaita por esses pagos, como instrumento símbolo do Rio Grande do Sul, tramita na Assembleia Legislativa.
É louvável o projeto de um deputado acordeonista sugerir o instrumento que sabe executar como a simbologia musical do Estado. Todavia, me pergunto o porquê do acordeão ser instrumento escolhido, quando seria mais justo gaita e violão, ou exclusivamente o segundo, haja vista que o instrumento de cordas é mais tradicional que o de fole no Rio Grande do Sul.
A viola, ou vihuela, ancestral do violão, estava presente no sul do Brasil muito antes da gaita que entra no Rio Grande do Sul após a guerra do Paraguai. Nos períodos das Reduções Missioneiras e da Revolução Farroupilha há registro da viola.
O Acordeão chegou depois, tanto que há quadrinhas tradicionais que enfatizam isso:
“Mas há uma diferença
no desafio campeiro
hoje com gaita e não viola
como era de primeiro.”
(Piá do Sul).

“A gaita matou a viola;
O fósforo matou o isqueiro;
A bombacha; o chiripá;
A moda o uso campeiro.”
(quadra popular)

Potencialidades do Gauchismo
O Fórum Democrático de Desenvolvimento que a Assembleia Legislativa do estado do Rio Grande do Sul pretende debater este ano, tem como um dos temas “Potencialidades do Tradicionalismo Gaúcho”. As previsões do debate colocam o estado da Bahia como referência na difusão cultural e inserem perguntas a serem respondidas pelo fórum. Nestas interrogações estão explícitas manifestações extratradicionalismo, que dão a entender que o fórum quer compreender o gauchismo e não exclusivamente o tradicionalismo. Talvez, decifrar a nanica indústria cultural gaúcha.
O que chega até aqui referente a Bahia é o produto cultural, trabalhado como indústria. A boa compreensão das teorias da Escola de Frankfurt permite à Bahia se valer da indústria cultural para a massificação do seu produto, o que se torna grande atrativo para os políticos locais que, por sua vez, passam a injetar verbas para o fortalecimento desta indústria em troca de popularidades próprias.
Mas, voltando às questões do debate rio-grandense. Além do pressuposto equivocado de que nada foi feito cientificamente antes, o corpus da pesquisa já nasce corrompido, por partir do olhar de fora, que vê tudo como tradicionalismo e não como gauchismo. Tradição é uma parcela do gauchismo, na qual se baseia o Movimento Tradicionalista Gaúcho para estipular seu campo de ação. Porém o MTG, o órgão oficial, nada mais é do que uma ONG - organização não governamental - que muitas vezes é confundido como o dono todo poderoso do gauchismo. No entanto, a cultura gaúcha existe fora do MTG, o que não invalida sua existência nem sua atuação.
Se o debate surgir com olhar tradicionalista sobre a cultura gaúcha que é mais ampla e mais viva que o tradicionalismo, certamente fugirá do científico para bailar na orla do ideológico.
A resposta que busca o fórum, é conhecida por quem labuta no movimento cultural gaúcho. Todavia, se quisermos traçar um paralelo entre os dois estados, não podemos comparar um produto de cultura mercadológica num processo capitalista, com a cultura autóctone que não se prende a falsa realidade da mistificação das massas.
Lá, se cria condições favoráveis para implantação da indústria cultural pelo preço de troca, objetivando a remodelação subjetiva do cotidiano na esfera cultural, padronizando as formas e técnicas na busca de atender sempre as maiores demandas no caráter coercitivo da sociedade alienada. Aqui, se quer desalienar a população enquanto indivíduo, não em massa. Busca-se aprimorar sua consciência crítica individual, valorizar a condição estética inusitada e sentimental da obra, a sublimação da mente humana, agregando valores culturais à semiconsciência, na busca de entendimento ao verdadeiro amor à terra. Porque uma coisa é arte, outra é produto cultural composto de técnica de propagação e difusão ou de estética padronizada de dominação. Não se pode comparar rendimento com sentimento.
Acredito que antes de estabelecer comparativos, temos compreender o gauchismo. Devemos primeiro saber que o tradicionalismo não é o todo da cultura regional rio-grandense. Temos que estar abertos ao entendimento das influências culturais legítimas e também saber diferenciar o que é produto cultural, o que é cultura e o que é entretenimento. O telúrico pode não ser divertido, mas alimenta a alma, assim como o bailável pode não ser terrunho, mas alegra a gente.
Se a ideia é tratar a parte como o todo, então vai ser melhor uma grande roda de mate e churrasco à beira do fogo para contar boas anedotas. E, para começar, poderia ser a dos carangejos baianos e gaúchos em seus baldes com ou sem tampa. Como espero que debate seja amplo, conto o fim desta piada imensamente conhecida: os caranguejos baianos, pela lógica, estão no balde com tampa, porque senão todos ajudam para que um suba e tire os demais do balde, enquanto os gaúchos estão no balde sem tampa, porque se um conseguir subir até a borda do balde, os outros se encarregam de puxá-lo de volta.

* Jornalista, pajador e apresentador
pajador_mendonca@hotmail.com

 

A PARTE NÃO É O TODO

Peço, antes que comece
este meu verso teatino,
permissão, porque opino
com razão de quem conhece:
nem tudo o que se parece
é o que possa parecer.
Quem só de fora quer ver
pode cair no engodo
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Por conhecer bem a parte
e os seus desmembramentos,
afirmo aos quatro ventos
um saber que se comparte:
cultura não é só arte
que reproduz o viver.
Cultura faz renascer
o genuíno com denodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Tradição é uma herança
de valor espiritual. 
Legítima e cultural,
é o fiel da balança.
Alicerce da esperança
do porvir a florescer,
mas se a gente adormecer
o futuro passa o rodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Sei, com alma guitarreira,
sopro não é assovio.
Nem toda fronteira é rio,
nem todo rio faz fronteira.
A gota, uma água inteira,
noutra, vai se desfazer.
Pouca, lodo vai fazer,
mas se muita, lava o lodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

A imagem não é o fato
do qual ela se estrutura,
tampouco a nomenclatura
pode ser dona do ato.
A voz não é o relato
do que pretende dizer.
Não se admite entender
gaúcho qual um apodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

 

DE ANDAR

Fronteira é uma divisa
imaginária, ilusória,
cada vez menos notória,
cada vez mais imprecisa
quando a alma poleniza
na flor da paz fraternal.
A fronteira é um sinal
que na verdade inexiste
ante o amor que persiste
na pátria espiritual.

O homem nasce pra andar
pelos caminhos difusos
integrando atos, usos
e sua forma de pensar.
O jeito de se postar
expressa suas verdades
e atrai como amizades
os que encontra por aí:
são reflexos de si
em suas afinidades.



O HOMEM

Mote:

A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.

Glosa:

A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.

O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.

A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.

O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.


  • -------------------------------------------

    Aos Meus Irmãos

    Aos irmãos de continente
    de pulsação e energia,
    de pátria e de poesia,
    de alma e subconsciente,
    de respeito mutuamente,
    sempre que posso me irmano
    porque aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de abraço e sorriso
    ou de aperto de mãos,
    sendo ou não concidadãos
    ou parceiros de improviso,
    nada é tudo que preciso
    para encontrar um hermano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de além fronteira
    ou daqui, do dia-a-dia.
    Independe a geografia
    se amizade é verdadeira.
    Sendo a alma é bem campeira
    bato versos mano a mano.
    Por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos, quero brindar
    aos de mate e cantiga,
    parceiros de prosa amiga,
    ou então os de além mar
    com quem quero me encontrar
    nem que seja ano a ano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos desconhecidos
    por estas tantas querências
    sei de suas existências
    por instinto e por sentidos.
    Jamais serão esquecidos,
    pois a ninguém eu engano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

     

    -------------------------------------------

    O Chamamé

    Chama-me sempre de amor
    que a todo bem é capaz.
    Senão, chama-me de paz
    que é alva mais linda cor.
    Chama-me de sonhador,
    que quer a todos igual.
    Chama-me de fraternal,
    que é puro de coração.
    Chama-me então de canção
    de uma terra sem mal.

    Chama-me de alegria
    que é benção do eterno Pai.
    Chama-me de sapukay
    que é explosão de energia.
    Chama-me de melodia
    que põe a alma de pé.
    Chama-me de terra e fé
    por eu ser asa e semente.
    Chama-me de voz e gente:
    Chama-me de Chamamé.


  • -------------------------------------------

    A Suprema Paz


    A paz é mais que um evento,

    sutil em sua unidade.

    Possui mais diversidade

    que da terra ao firmamento.

    A paz de estacionamento,

    por plasmada, nada faz,

    ensimesmada lhe apraz

    beber do egocentrismo.

    Por ser paz de egoísmo

    Não é a suprema paz.


  • A paz de quem não agride

    com falso olhar sereno,

    por não judiar do pequeno

    se julga grande e regride.

    Pela empáfia não progride,

    pois tem ganância mordaz.

    Dança a vaidade fugaz

    na guerra embaixo dos panos,

    sendo paz de ares profanos

    Não é a suprema paz.


  • A paz falsa que consola

    pondo-lhe a mão na cabeça.

    Ao contrário que pareça

    produz falácia e enrola,

    num discurso que controla

    a inocência que ali jaz.

    É uma paz incapaz

    de acalmar alheia dor.

    Por ser de esfera inferior,

    Não é a suprema paz.


  • A paz trançada em tratados,

    em contrato ou carta régia,

    é uma paz de estratégia

    com dois lados deformados.

    É paz dos desesperados

    que são guerreiros, aliás,

    com rastros de sangue atrás,

    apenas cessam as mortes

    Paz de interesse dos fortes

    Não é a suprema paz.


  • A paz por necessidade

    por revanche do vencido

    é algo tão sem sentido,

    foge a razão da verdade.

    É paz sem cumplicidade

    que um passo em falso a desfaz.

    Logo a guerra se refaz

    em sua arte tão ágil.

    Por ter fundamento frágil,

    Não é a suprema paz.


  • Paz de interesse vulgar,

    gesto de falso cortês,

    salgada de insensatez

    é gota doce no mar.

    Mistura-se ao seu azar

    e por mais que seja audaz

    torna-se ineficaz

    de vestir-se em cortesia.

    Por ser paz de antipatia

    Não é a suprema paz.


  • A paz de estar solito

    no meio da multidão

    ou de arder em solidão

    em seu recinto restrito.

    É paz que sufoca o grito

    da realidade vivaz.

    Por sonhador contumaz,

    se torna um auto-recluso.

    Por ser a paz de um confuso,

    Não é a suprema paz.


  • A paz de grande festejo

    só vestida de aparência

    é uma paz sem consciência

    de destorcido desejo.

    Rolam moedas ao tejo

    na extravagância voraz.

    Quase ninguém é capaz

    de conter farto consumo.

    Por embriagar seu rumo

    Não é a suprema paz.


  • Paz de alardes frenéticos

    de falatórios inúteis

    com protagonistas fúteis

    e resultados patéticos,

    atropela atos éticos,

    mostra vistoso cartaz,

    porém quem é perspicaz

    pouca atenção lhe demanda,

    porque a paz de propaganda

    Não é a suprema paz.


  • Contudo, a paz de verdade

    tem sopros de onipotência,

    de compreensão, clemência,

    fé, justiça e caridade,

    de infinita bondade,

    de servidor pertinaz,

    de amoroso tenaz,

    vendo a todos como seus.

    Só a paz que vem de Deus

    É sim, a suprema paz.


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    Disse Dom Jayme Caetano


    Lembro Dom Jayme Caetano,

    o pajador missioneiro,

    como um pajé feiticeiro

    do xucro verso pampeano.

    Quando esteve nesse plano,

    disse ao Pago muito bem:

    “Às vezes quem nada tem

    é aquele que melhor vive,

    quantas fortunas eu tive

    sem nunca ter um vintém.”


  • Menestrél iluminado,

    do nosso tempo, um Homero,

    que teve um cantar sincero

    do presente e do passado.

    Disse que o Patrão sagrado,

    em sua sabedoria,

    “deu o canto e a melodia

    para os pássaros e os ventos

    pra que fossem complementos

    do que chamamos poesia”


  • Fez um relato preciso,

    em sua crioula leitura,

    que Deus fez criatura

    que expulsou do paraíso.

    Arrematou d’improviso

    com este verso bonito:

    “O homem nasce de um grito

    e a morte é tão silenciosa

    na passagem misteriosa

    que apaga nosso infinito”


  • Poeta e pajador,

    o crioulo das missões,

    fazia interpretações

    do gaúcho campeador,

    desde o de fino teor

    ao taura da casca grossa:

    “Que bárbara a raça nossa,

    vejo quando examino,

    as origens do teatino

    que o chimarrão não adoça”


  • De-a-cavalo na experiência

    que lhe forjou a estatura

    num manancial de cultura,

    interrogando à existência.

    E por ter buena consciência,

    disse com sinceridade:

    “Aprendi na mocidade

    algo que ninguém me tira,

    que não há meia mentira,

    tampouco meia verdade.”


  • Por isso tem a certeza

    que nada é ultrapassado,

    porque tudo está ligado

    nas teias da natureza.

    Nos explica com clareza

    a força da auto-estima:

    “Há uma lei que vem de cima

    na estrada do tapejara:

    - o tempo que nos separa

    é o que mais nos aproxima.”


  • Conheci este cantor

    escreve Mozart Pereira

    quando abre-lhe a porteira

    do potreiro pro leitor.

    Também guardo este “honor”;

    igualmente o conheci.

    E com ele eu aprendi

    o que o mundo saberá:

    “Por longe que o homem vá

    nunca fugirá de si”


  • Há homens que nascem vento

    passam - passam, ninguém nota,

    mas os de bombacha e bota

    são feitos de sentimento.

    Por orgulho ao seu talento

    na pajada e na cantiga

    sempre ouço voz amiga

    a alardear com louvor:

    “Que conheceu um cantor

    daqueles da marca antiga.



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