Quando da morte de Jayme Caetano Braun, em 1999, um conhecido
jornalista escreveu um artigo superficial num importante jornal de
Porto Alegre e por falta de informação afirmou como exemplos da
pajada nos países do Prata os nomes de "Gustavo Villón, José
Larraude e Argentino Luna". A partir daí muitos outros artigos estão
repetindo os mesmos enganos. Não sei se por erro de digitação ou por
desconhecimento dois nomes saíram errados. Não contestei na época
por julgar que tudo se apagaria no final do dia quando os jornais
diários vão para o lixo. Mas a força da pajada e do veículo, e ainda
o desconhecimento generalizado do tema fizeram a dita reportagem ter
vida após o final daquele dia. Hoje não são poucos os sites que
reproduzem a referida reportagem e outros publicam artigos de outras
pessoas citando os três ou só Villón. Talvez tenham descoberto que
os outros dois sejam "cantautores" e não "payadores".
Esclareçamos agora, embora tarde dado ao estrago feito pelos
papagaios de plantão. Argentino Luna nunca foi considerado pajador
em seu país, embora conheça a arte e vez por outra arrisque algum
improviso como a maioria dos artistas crioulos daquele país. Por
duas vezes pajou no Brasil, em Porto Alegre e em Passo Fundo, mas
foram as únicas vezes que se tem notícia que tenha pajado em
público. É um consagrado cantor, autor, poeta e guitarreiro
argentino, o que eles chamam de cantautor. José Larralde (e não
Larraude) também nunca foi pajador, tanto que quando convidado pelos
organizadores a participar do Encontro de Pajadores da América
Latina em Passo Fundo, em 1993, declinou do convite sob a alegação
de "no soy payador, soy um cantor y guitarrero". Larralde hoje é um
dos principais nomes da música crioula argentina, mas não improvisa
e não usa a décima em seus poemas e relatos.
O terceiro, que é o nó principal desta questão, nunca foi Villón
e nem Lichon, Liton, Vichon e outros nomes aleatórios, como já anda
sendo citado por alguns sites. Na verdade é o payador uruguaio
Gustavo Guichon, meu particular amigo, que conheci em 1982, nas
Criollas do Parque Roosevelt, em Canolones, no Uruguai e com quem
tenho me encontrado pelo mundo a fora. Ele esteve em Passo Fundo e
Bagé. É um grande pajador que merece ser citado em todos estes
sites. Creio que se deva dedicar esta mídia que está sendo jogada
fora a quem merece.Sugiro que os conterrâneos que corrijam seus
artigos, pois até em livro já saiu errado. O nome dele é Gustavo
Guichon.
Aproveitando a deixa, quero dizer que tenho me sentido
entristecido ao pesquisar na Internet. A rede está cheia de artigos
simplistas que afirmam aberrações como verdades. É procedente aquele
dito de que uma frase incorreta repetida por muitas vezes e por
muitas pessoas passa a configurar como verdade absoluta.
Então, sem querer ser chato, dono da verdade ou outro adjetivo
que possam aplicar a esta atitude, discuto outros assuntos
pertinentes.
Alguns sites citam a origem da palavra pajador mas nenhum é
convincente. Ora, tenho participado de diversos congressos pelo
mundo (vamos ter um em Porto Alegre) e nunca ouvi um especialista
responder a etimologia da palavra. Todos afirmam as mesmas
hipóteses, de que ela possa ter vindo de "palla", "payo" "pagueador"
ou "pago", mas nenhum comprova a origem da palavra. Qualquer
afirmação sem comprovação etimológica da palavra pajador é
leviandade. Em vários sites há a afirmativa que tenha se originado
de uma destas ou de outras absurdas, e ponto final. É lamentável.
Outro esclarecimento: Os poemas Martin Fierro, Antônio Chimango e
Estância do Abandono não podem ser considerados como pajadas. Eles
são poemas que retratam o canto pajadoresco. José Hernandez, Amaro
Juvenal e Zeca Blau não foram pajadores e sim poetas magistrais,
todos com a inspiração poética própria do cotidiano gauchesco da
formação do sul da América.
Mais um esclarecimento: Assim como Larralde e Luna não são
pajadores, não se deve confundir cantores guitarreiros que
interpretam o estilo pajadoresco com pajador. Possuem seu valor, mas
não o são.
Outro detalhe: a palavra em espanhol é "payador", porque o "y"
faz som de jota. Em português a palavra é escrita com "j". Em ambos
os idiomas a pronúncia é a mesma, pajador.
Para finalizar, digo que a pajada vingou no Rio Grande do Sul e
cito alguns nomes que podem ser citados como referência do canto
pajadoril no Brasil, Uruguai, Chile e Argentina: Jayme Caetano
Braun, Gabino Ezeiza, Juan Nava, Roberto Ayrala, Carlos Molina, José
Curbelo, Pedro Yañes, Marta Suint, Jadir Oliveira, Lázaro Moreno,
José Estivalet, Cecília Astorga, Mariela Acevedo, Gabino Souza,
Arabi Rodrigues, Adão Bernardes, Walter Mosegui, Pedro Junior da
Fontoura, Juan Carlos Lopes, Victor Di Santo e, claro, Gustavo
Guichon, entre tantos outros.
Qualquer contestação com documento comprobatório será bem-vinda.
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