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Famoso "payador" que não existe

Paulo de Freitas Mendonça - nativismo@nativismo.com.br


Quem realmente conhece a história dos pajadores pode, ao ler a manchete, pensar que eu me refira a Santos Vega. Há historiadores que afirmam sua existência e outros que ele seja apenas uma lenda. Não é de Santos Vega que trato hoje. É sobre um pajador que está se consagrando via Internet, graças a falta de cuidado de alguns dos nossos jornalistas e pseudo-pesquisadores brasileiros.

Ainda não nasceu um homem

que tenha se tornado pajador com o nome ou sobrenome de Villón.

Quando da morte de Jayme Caetano Braun, em 1999, um conhecido jornalista escreveu um artigo superficial num importante jornal de Porto Alegre e por falta de informação afirmou como exemplos da pajada nos países do Prata os nomes de "Gustavo Villón, José Larraude e Argentino Luna". A partir daí muitos outros artigos estão repetindo os mesmos enganos. Não sei se por erro de digitação ou por desconhecimento dois nomes saíram errados. Não contestei na época por julgar que tudo se apagaria no final do dia quando os jornais diários vão para o lixo. Mas a força da pajada e do veículo, e ainda o desconhecimento generalizado do tema fizeram a dita reportagem ter vida após o final daquele dia. Hoje não são poucos os sites que reproduzem a referida reportagem e outros publicam artigos de outras pessoas citando os três ou só Villón. Talvez tenham descoberto que os outros dois sejam "cantautores" e não "payadores".

Esclareçamos agora, embora tarde dado ao estrago feito pelos papagaios de plantão. Argentino Luna nunca foi considerado pajador em seu país, embora conheça a arte e vez por outra arrisque algum improviso como a maioria dos artistas crioulos daquele país. Por duas vezes pajou no Brasil, em Porto Alegre e em Passo Fundo, mas foram as únicas vezes que se tem notícia que tenha pajado em público. É um consagrado cantor, autor, poeta e guitarreiro argentino, o que eles chamam de cantautor. José Larralde (e não Larraude) também nunca foi pajador, tanto que quando convidado pelos organizadores a participar do Encontro de Pajadores da América Latina em Passo Fundo, em 1993, declinou do convite sob a alegação de "no soy payador, soy um cantor y guitarrero". Larralde hoje é um dos principais nomes da música crioula argentina, mas não improvisa e não usa a décima em seus poemas e relatos.

O terceiro, que é o nó principal desta questão, nunca foi Villón e nem Lichon, Liton, Vichon e outros nomes aleatórios, como já anda sendo citado por alguns sites. Na verdade é o payador uruguaio Gustavo Guichon, meu particular amigo, que conheci em 1982, nas Criollas do Parque Roosevelt, em Canolones, no Uruguai e com quem tenho me encontrado pelo mundo a fora. Ele esteve em Passo Fundo e Bagé. É um grande pajador que merece ser citado em todos estes sites. Creio que se deva dedicar esta mídia que está sendo jogada fora a quem merece.Sugiro que os conterrâneos que corrijam seus artigos, pois até em livro já saiu errado. O nome dele é Gustavo Guichon.

Aproveitando a deixa, quero dizer que tenho me sentido entristecido ao pesquisar na Internet. A rede está cheia de artigos simplistas que afirmam aberrações como verdades. É procedente aquele dito de que uma frase incorreta repetida por muitas vezes e por muitas pessoas passa a configurar como verdade absoluta.

Então, sem querer ser chato, dono da verdade ou outro adjetivo que possam aplicar a esta atitude, discuto outros assuntos pertinentes.

Alguns sites citam a origem da palavra pajador mas nenhum é convincente. Ora, tenho participado de diversos congressos pelo mundo (vamos ter um em Porto Alegre) e nunca ouvi um especialista responder a etimologia da palavra. Todos afirmam as mesmas hipóteses, de que ela possa ter vindo de "palla", "payo" "pagueador" ou "pago", mas nenhum comprova a origem da palavra. Qualquer afirmação sem comprovação etimológica da palavra pajador é leviandade. Em vários sites há a afirmativa que tenha se originado de uma destas ou de outras absurdas, e ponto final. É lamentável.

Outro esclarecimento: Os poemas Martin Fierro, Antônio Chimango e Estância do Abandono não podem ser considerados como pajadas. Eles são poemas que retratam o canto pajadoresco. José Hernandez, Amaro Juvenal e Zeca Blau não foram pajadores e sim poetas magistrais, todos com a inspiração poética própria do cotidiano gauchesco da formação do sul da América.

Mais um esclarecimento: Assim como Larralde e Luna não são pajadores, não se deve confundir cantores guitarreiros que interpretam o estilo pajadoresco com pajador. Possuem seu valor, mas não o são.

Outro detalhe: a palavra em espanhol é "payador", porque o "y" faz som de jota. Em português a palavra é escrita com "j". Em ambos os idiomas a pronúncia é a mesma, pajador.

Para finalizar, digo que a pajada vingou no Rio Grande do Sul e cito alguns nomes que podem ser citados como referência do canto pajadoril no Brasil, Uruguai, Chile e Argentina: Jayme Caetano Braun, Gabino Ezeiza, Juan Nava, Roberto Ayrala, Carlos Molina, José Curbelo, Pedro Yañes, Marta Suint, Jadir Oliveira, Lázaro Moreno, José Estivalet, Cecília Astorga, Mariela Acevedo, Gabino Souza, Arabi Rodrigues, Adão Bernardes, Walter Mosegui, Pedro Junior da Fontoura, Juan Carlos Lopes, Victor Di Santo e, claro, Gustavo Guichon, entre tantos outros.

Qualquer contestação com documento comprobatório será bem-vinda.

 


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