Mala de Garupa
Falta diversidade e poética nos festivais
Falta diversidade e poética nos festivais
O poema é uma vela. O festival, o templo. Há velas que duram poucos minutos, outras, horas e algumas, dias. Há diversidade de cores, formatos e utilidades, porém o que todas tem em comum é a luz. No momento em que as religiões indicarem aos seus fiéis um único tipo de vela para todas as ocasiões as outras cairão em desuso ou no mínimo colocarão seus fabricantes em dificuldade.
Tenho observado os festivais de poesia desde o surgimento deste ciclo. Bem no princípio dele, acompanhei e tive o privilégio de participar da Chasqueada de Livramento. Vejo, exceto raras exceções, poucos tipos de vela a darem luz nestes certames. São églogas (eclógas), epopéias corrompidas, poemas em versos brancos. A maioria deles figura no que os estudiosos chamam de prosa poética versificada. Apesar de considerar de importância relevante me preocupa a ausência de velas de formatos diversos que possuem mesma luz e não são acesas nestes templos.
É necessário que tenhamos bem claros alguns conceitos para podermos refletir sobre o que é prosa poética e texto versificado.
O que realmente são prosa, poesia, poema, verso, narrativa? Equilibrar-se no fio de navalha que é a distinção destes conceitos requer muita precaução. Às vezes classificações precipitadas causam equívocos estrondosos. Pior é quando o poeta desconhece as semelhanças e as diferenças e, empiricamente produz obras, muitas vezes de grande inspiração, mas de reduzido valor literário por deficiência técnica ou classificações equivocadas.
A expressão prosística difere da poética em seus signos de conceito: a prosa poética descreve o universo geográfico plausível enquanto que o poema com elevado grau poético cria um universo próprio, uma espécie de geografia virtual pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens.
A poesia no texto versificado é síntese, é a arte da descrição do eu poético que cria uma geografia própria, o universo do poema. No momento em que descreve a geografia exterior, real, ele empobrece o fenômeno poético. A realidade é relato.
Na prosa há narradores diversos. Na poesia, geralmente o narrador é o “eu poético”, a voz interior do poeta-homem-civil. Na poesia oral o autor transfere esta legitimidade ao declamador.
“O poeta pensa por imagens”, afirma René Waltz.
Às vezes eu me pergunto porque os festivais de poemas são denominados Festivais de Poesia e só aceitam poemas, se a poesia pode estar no poema em verso como no poema em prosa, no conto, no romance, na novela, na fotografia, na pintura... O teatro pode assumir forte carga poética.
Há uma associação imediata entre poema e poesia. Não se pode confundir poesia com poema ou com verso. Aristóteles classifica a poesia na categoria abstrata e o poema na categoria formal; Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar poesia, mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”. Quando faço improviso comentando os feitos da semana não estou fazendo poesia. Estou criando um relato versificado, neste caso de improviso e em Décima Espinela. Aliás, a Décima Espinela ganhou notoriedade através do teatro europeu, no século XVII.
Poesia no texto versificado é mímese, imitação da ação. É a-narrativa. É a ebulição interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história, sem enredo.
Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente poético, ou seja, não narrativo. Neste período houve a transformação das epopéias em romance. Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas.
A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação do que se sente.
O poeta ao produzir o poema deve ter consciência da linha característica de sua obra. Nota-se, em muitos casos, um empirismo impressionante como se a inspiração fosse tudo, mas a técnica é fundamental. O que o leitor ou ouvinte absorve inconscientemente, o poeta deve ter consciência no instante preciso da criação. É necessário que ele se expresse inteligentemente, experimentando tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade, observando a metrificação, utilizando-se de sinalefas quando necessário, empregando rimas ricas ou raras quando possível, entendendo em que subgênero poético esta compondo.
Ao se converter no primeiro leitor de seu poema, o poeta deve analisar sua obra sob critérios técnicos. Passado o momento da inspiração, chega o da catarse.
O declamador também deve ter conhecimento técnico, especialmente no que se refere à metrificação e sinalefa, para que não quebre o verso produzido metrificado. Às vezes em uma ênclise o declamador pode quebrar o verso tecnicamente correto.
Sem me deter na profundidade que merece o estudo do poema, penso que para o fazer poético com texto versificado é necessário o conhecimento desde os conceitos básicos da gramática nominativa, passando pela diversidade da sílaba. Sílabas pretônica, tônica, postônica, aberta, fechada, acípite, breve, longa... É fundamental saber quais são versos agudos, alexandrinos, anacíclicos, brancos, esdrúxulos, graves, heptâmetros, heróicos, livres, leoninos...
É imprescindível conhecer a escansão, a sinalefa, sinérese, a elisão, os tipos e o valor das rima, as estrofes, os subgêneros poéticos. Deve entender a cadência e o ritmo dos poemas. Aliás, aqui cabe uma análise mais profunda: a grande maioria dos autores confunde cadência com ritmo. A alternância de sílabas longas e breves, ou tônicas e átonas, pausas, e elevações e quedas da voz é formadora da cadência, não do ritmo como pensa a maioria dos estudiosos.
O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão modulada oferece uma sensação musical. É a fusão entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do leitor. É subjetiva, por isso varia em cada leitor e muitas vezes no mesmo, dependendo do espírito do momento. Cada pessoa encontra o ritmo numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato de dois musicistas associarem melodias diferentes para o mesmo poema musicado.
A quem interessa a luz é importante saber qual o tipo de vela acender. A quem administra o templo julgo que seja pertinente permitir todos os tipos e formatos de velas para que haja a real manutenção da diversidade sem perder brilho.