Mala de Garupa
Considerações sobre as letras de músicas feitas para festivais.
Considerações sobre as letras de músicas feitas para festivais.
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista, poeta, compositor, pajador
e estudioso da cultura poético-musical
do Rio Grande do Sul.
Os festivais do Rio Grande do Sul recebem em média de 400 a 500 músicas em cada triagem, alguns mais outros menos. Sem entrar no mérito do grau de descontentamento ainda existente por alguns autores que não classificam suas composições, temos que abordar alguns dos porquês da rejeição de certas concorrentes em relação a outras que alcançam êxito.
Os compositores, quando jurados, estão analisando tecnicamente as obras ali expostas à avaliação. Este fato ocorre sem que os mesmos tenham conhecimento de quem são os autores. Ora, algumas obras se sobressaem das demais pelo seu potencial artístico. Em hipótese alguma quero dizer que sejam em sua totalidade perfeitas. Há casos de classificações de canções que não convencem os jurados em alguns dos quesitos, mas são forçadas a figurar por questão regulamentar que exige um número determinado de selecionadas. Isto não é regra. Há vezes, por outro lado, que sobram músicas consideradas boas pelos avaliadores, também por este mesmo critério. Outro fator que deve ser considerado é o artigo do regulamento que permite um número máximo de um autor ou parceria.
Há festivais que tendem a dar uma linha considerada mais autêntica para as músicas que vão a palco e outros menos. Com relação às letras este conceito não foge muito do que com a melodia. Cabe imediatamente uma pergunta: o que é uma letra autenticamente gaúcha? Aqui se faz necessário o esclarecimento de que a linguagem poética de letra de música é aquela que consegue um maior imediatismo de entendimento do que os versos de um poema. No entanto não se pode confundir facilidade de compreensão com pobreza poética. Há questões universais que devem ser observadas na criação literária das músicas, sob pena de serem consideradas obras menores.
Aristóteles classifica a poesia na categoria abstrata e o poema no campo formal. Já René Wals diz que o poeta se expressa por imagens. Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar poesia, mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”. Então compreendemos que há músicas cujas letras estão carregadas de poética e outras desprovidas dela. Como uma canção é o conjunto de letra e melodia, acrescido de arranjos instrumental e vocal, às vezes ela se consagra mesmo com deficiência poética.
Poesia no texto versificado é mímese, imitação da ação. É a-narrativa. É a ebulição interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história, sem enredo.
Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente poético, ou seja, não narrativo. Neste período houve a transformação das epopéias em romance. Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas.
É necessário que o autor se expresse inteligentemente, experimentando tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade, observando a metrificação, utilizando-se de sinalefas quando necessário, empregando rimas ricas ou raras quando possível, entendendo em que subgênero poético esta compondo.
Ao se converter no primeiro leitor de sua letra o compositor deve analisar sua obra sob critérios técnicos. Passado o momento da inspiração, chega o da catarse.
Deve evitar em uma construção poética a utilização de palavras que não acrescentem sonoridades à obra. Elas vão dar a cadência e gerar sensação de emotividade no ouvinte. Há autores que afirmam que a sonoridade da palavra possui maior efeito num verso do que seu sentido. Da mesma forma que Alan Poe afirma que se há uma espingarda no conto ela deve atirar, penso que o letrista não deve colocar palavras sem uma forte significância sonora na letra. Pois a alternância de sílabas longas e breves, ou tônicas e átonas, pausas, e elevações e quedas da voz é formadora da cadência, não do ritmo como pensa a maioria dos estudiosos. O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão modulada oferece uma sensação musical. É a fusão entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do ouvinte. É subjetiva, por isso varia em cada um e muitas vezes no mesmo, dependendo do espírito do momento. O ritmo cada pessoa encontra numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato de que dois musicistas associem melodias diferentes para a mesma letra.
Sem divagar muito em conceitos teóricos é imprescindível que entendamos que a letra autêntica nos parâmetros da cultura gaúcha não necessariamente seja a que mais se reporte a uma cena de campo. Ela não precisa ser jocosa. Apenas pode ser. Ela perde valor poético se for muito descritiva. Há uma espécie de convenção não escrita no Rio Grande do Sul de que a prosa poética musicada seja o mais autêntico da canção gaúcha. Sabemos que a expressão prosística difere da poética em seus conceitos. A prosa descreve o universo geográfico plausível, enquanto que o poema e a letra de música com elevado grau poético criam seus universos próprios, uma espécie de geografia virtual pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens. A poesia no texto versificado é a arte da descrição do eu poético. No momento em que a letra de música descreve a geografia exterior real ela empobrece o fenômeno poético.
A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação do que se sente. E a melhor forma desta contemplação é a utilização de metáforas. Segundo Aristóteles “a trivialidade e a vulgaridade serão evitadas por meio do termo dialetal, da metáfora, do vocábulo ornamental, enfim de tudo que afasta da linguagem corrente.”.
Não pretendo alongar-me mais na descrição de outros problemas que “derrubam” concorrentes na triagem como erros de concordância verbal, imagens equivocadas, algumas vezes absurdas, tampouco abordar as constantes inadequações entre letra e melodia.
Tampouco pretendo ditar formulas milagrosas que definam o que é autêntico ou não, o que é correto ou não. Apenas levanto questões para que outros estudiosos, provavelmente com maiores conhecimentos que os meus dêem luz a um debate sadio para que possamos refletir sobre a verdadeira arte poético-musical do Rio Grande do Sul. Ao encerrar este breve comentário afirmo que não compreendo a música gaúcha como definitiva. Temos apenas 300 anos de história no Estado, 500 no país e pouco mais de 50 de tradicionalismo e de 30 de nativismo. Nossa cultura poética e musical está em plena formação e precisa ser discutida e estudada. Seria muito cômodo pensar que está tudo pronto, ademais a cultura de um povo não é estática, assim como o ser humano que é uma eterna fonte de aprendizado.