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  A Décima Gaúcha no Período Farroupilha

Paulo de Freitas Mendonça - nativismo@nativismo.com.br


Pela primeira vez acontece um concurso de pajada no ENART, o que representa o reconhecimento oficial pelo MTG a este tipo de arte. Embora a pajada e a décima sejam tão tradicionais quanto as demais artes apresentadas naquele evento, o desconhecimento generalizado sobre elas é o que impede até então sua oficialidade. Jayme Caetano Braun, falecido em 8 de julho de 1999, é o grande responsável pelo ressurgimento da pajada no sul do Brasil. É também considerado um dos maiores difusores da Décima Espinela no Rio Grande do Sul. A décima e a pajada existem antes de Braun em território rio-grandense, e isto não tira o mérito do pajador maior, que pode ser considerado o primeiro pajador-artista-profissional do sul do Brasil. Também não se pode desprezar a informação de que no nordeste brasileiro a décima é usada como forma de repente há mais de um século. Lá estes repentistas são chamados de cantadores ou violeiros.

 

Em 1924, no ano em que Braun nasce, o poeta e pajador natural da cidade de Santiago, Manuel do Carmo, sob o pseudônimo de M. Pereira Fortes, lança seu livro Cantares da Minha Terra, no qual inclui belas décimas, cita os pajadores e é citado no prefácio como tal. Ele teria aprendido a improvisar em "glosa" com os pajadores rurais pelos galpões das estâncias de seus familiares.

 

M. Pereira Fortes, também conhecido por Pereirinha ou Manduca, registra décimas que chamava de epigrama ou glosa ao "tanger da viola".

 

"Poetas da Minha Terra
Que a cantar levaes a vida,
Ao som da gaita sentida,
Que tanta poesia encerra;
Quando a musa vos descerra
O peito em trova serenas,
Porque não cantaes as scenas,
Da nossa terra encantada,
Terra entre as mais adorada,
Pátria das lindas morenas?

..............

Poetas do meu Rio Grande,
Pelo pampeiro embalados,
Que cantaes apaixonados
Com harmonia tão grande,
Porque, quando a musa expande
No canto a trova sentida,
Porque não cantaes a vida
O ar, a serra, a campanha,
O céo, a belleza extranha
Da Nossa Terra Querida?"


Antes dele porém, a décima já é conhecida e difundida em solo gaúcho. Segundo o sociólogo, bacharel em direito, musicista, historiador, biógrafo e autor de diversas obras, Fernando Osório, há décimas no período da Revolução Farroupilha, no Estado. No seu livro A Graça e o Lyrysmo-Heróico dos Farrapos, Osório registra que em 1834, o mártir revolucionário Francisco Xavier Ferreira, que morre no cárcere, registra em décima seu ideal:

 

"Dos decretos de Minerva
A prol do grande Brasil,
Receia o bando servil,
Já treme a facção proterva,
Embora infame caterva
Trace planos atrevidos
Serão logo desmentidos
Êsses planos ignavos
Pelos que não são escravos
De Braga e Barreto unidos."


Outra comprovação da existência da décima espinela no Decênio Farroupilha feita pelo mesmo historiador na referida obra, elucida o autor da letra do Hino Rio-grandense como decimista. Afirma Osório: "Nascido no Alegrete, Francisco Pinto da Fontoura, passara dos braços de sua mãe aos de uma senhora que, como tal, o criou. Já adolescente e dotado de uma grande beleza, viveu separado desta dama por alguns anos, e, quando retornou à sua presença, era mui outro: Como está velho, o meu Chico! disse-lhe ela, entristecida sem poder ocultar a surpresa. Fontoura, horas depois fixou êsse encontro em doce lirismo:

 

"... Na primavera da vida,
Quando estes versos tracei,
Analia, nunca pensei,
Que a sorte me fosse infida
Esta barba encanecida,
Não é, Analia, dos anos,
É dos tristes desenganos;
São lembranças do passado
Do tempo em que, afortunado,
Eu era a flor dos humanos.

.................

Assim como a sensitiva,
Quando um choque sofre apenas,
Fica despida das penas,
Como morta, sendo viva;
Assim eu, na roda ativa,
Dos meus constantes azares,
Que me chovem a milhares.
Ves-me Analia encanecido,
Em meu semblante esculpido,
O quadro dos meus penares."


Mais uma constatação da décima no período da República Rio-grandense é a obra da decimista gaúcha Delfina Benigna da Cunha. Natural de São José do Norte (17.06.1791 - 13.04.1857), ficou cega aos vinte meses de vida, mesmo assim produziu obra importante. Seu primeiro livro Poesias Oferecidas às Senhoras Rio-grandenses, editado em 1843, registra esta décima que demonstra oposição ao movimento revolucionário, tanto que denuncia uma forte aversão ao General Bento Gonçalves da Silva.

 

"Chovam sobre ti os raios
Da Divina Providência
E seja tua existência
Passada em frios desmaios;
Nos mais cruentos ensaios
Sempre esteja engolfado,
Por querer do ímpio fado
Todos os males te assaltem
Té que os alentos te faltem
Bento infeliz, desvairado." .................

 

A décima retorna no sul do Brasil pelo canto improvisado de Jayme Caetano Braun em 1958. Depois ganha as páginas de seus livros e som nos seus programas de rádio e discos. Difunde-se na sua voz pelos espetáculos e passa a ser produzida pelos novos pajadores e poetas do Rio Grande do Sul. Hoje ganha oficialidade através do MTG em seu ENART. Atualmente a décima está reintegrada ao movimento cultural gaúcho. Contudo é necessário aprender sua rigidez rimática e métrica para não descaracterizá-la.

 


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